Brasil potência agrícola global, mas dependente de fertilizantes importados; alta da ureia expõe vulnerabilidade e riscos à produção e preços dos alimentos.
O Brasil consolidou nas últimas décadas uma posição singular no cenário agrícola mundial. Poucos países combinam território vasto, clima favorável, tecnologia tropical avançada e capacidade logística suficiente para produzir alimentos em escala continental.
Não por acaso, o país se tornou um dos maiores exportadores de soja, milho, carne e diversas outras commodities agrícolas, participando diretamente da alimentação de uma parcela significativa da população global. Estima-se que a produção brasileira contribua para abastecer cerca de 10% da população do planeta. Contudo, por trás dessa força produtiva existe uma fragilidade estrutural pouco visível ao público em geral: a forte dependência de fertilizantes importados.
Atualmente, entre 85% e 90% de todo o fertilizante utilizado nas lavouras brasileiras tem origem no exterior. Em 2025, o país importou um volume recorde de 45,5 milhões de toneladas desses insumos, enquanto a produção doméstica permaneceu em torno de apenas 7,2 milhões de toneladas. A dependência não se distribui de maneira uniforme entre os principais nutrientes utilizados na agricultura moderna. No caso do nitrogênio, essencial para culturas como milho e cana-de-açúcar, a dependência externa se aproxima de 95%. Para o fósforo, utilizado em grande escala em diversas culturas, a dependência gira em torno de 75%. Já o potássio, componente indispensável para a produtividade da soja e de outros grãos, apresenta um nível ainda mais elevado de vulnerabilidade: cerca de 96% do que é utilizado no país vem de fora.
Essa concentração de fornecedores coloca a agricultura brasileira em uma posição sensível diante de crises internacionais. Os principais exportadores desses insumos incluem países como Rússia, China, Canadá, Belarus, Marrocos e diversos produtores do Oriente Médio. Muitos desses atores estão inseridos em regiões marcadas por tensões geopolíticas, sanções econômicas ou disputas estratégicas. Quando qualquer um desses fatores interfere na produção, no transporte ou na exportação de fertilizantes, os efeitos rapidamente se propagam para os mercados agrícolas globais.
Nos últimos meses, essa vulnerabilidade tornou-se particularmente evidente com a escalada no preço da ureia, principal fonte de nitrogênio utilizada nas lavouras brasileiras. A ureia ocupa posição central no sistema agrícola contemporâneo porque fornece um dos nutrientes mais demandados pelas plantas. No caso do milho, por exemplo, a adubação nitrogenada é determinante para alcançar altos níveis de produtividade. No entanto, a produção desse fertilizante depende diretamente do gás natural, responsável por até 80% do custo de fabricação. Isso faz com que o mercado de ureia esteja profundamente conectado ao mercado energético global.
Em março de 2026, o preço internacional da ureia registrou uma alta expressiva em um intervalo extremamente curto. O contrato futuro para entrega no mês chegou a atingir aproximadamente US$ 618 por tonelada no início de março, representando uma elevação superior a 30% em menos de um mês. No mercado brasileiro, as cotações também reagiram rapidamente. Em poucos dias, os valores passaram da faixa de US$ 475 por tonelada para níveis entre US$ 500 e US$ 550 por tonelada CIF Brasil. Em algumas regiões do Nordeste, os preços internos chegaram a registrar alta próxima de 33% entre o final de fevereiro e o início de março.
A origem dessa volatilidade não está na agricultura brasileira, mas em fatores geopolíticos e energéticos localizados a milhares de quilômetros de distância. O agravamento das tensões no Oriente Médio afetou diretamente países importantes na produção de fertilizantes nitrogenados. O Irã, que respondeu por cerca de 19% da ureia importada pelo Brasil em 2025, enfrentou paralisações produtivas associadas ao conflito regional. O Egito, outro exportador relevante, também registrou interrupções. Ao mesmo tempo, gargalos logísticos surgiram em rotas marítimas estratégicas, especialmente no Estreito de Ormuz, um corredor pelo qual transita parcela significativa do comércio global de energia e fertilizantes.
Estima-se que cerca de 35% da oferta mundial de ureia esteja vinculada a fluxos comerciais que passam por regiões diretamente afetadas por essas tensões. Quando o tráfego marítimo nessas áreas se torna mais arriscado ou caro, o custo do frete aumenta e a oferta disponível nos mercados consumidores diminui. Para países altamente dependentes de importações, como o Brasil, isso se traduz em aumento imediato dos custos agrícolas.
Os impactos já começam a aparecer no planejamento das próximas safras. Em estados como Mato Grosso, principal polo produtor de grãos do país, os produtores observam com cautela a evolução dos preços dos fertilizantes antes de fechar contratos de compra. Dados de institutos regionais indicam que apenas uma pequena parcela dos insumos necessários para a safra 2026/2027 foi negociada até o momento, o que expõe os agricultores a oscilações futuras de mercado. O aumento recente da ureia pode representar um custo adicional equivalente a várias sacas de milho por hectare, reduzindo margens de rentabilidade.
Esse encarecimento dos insumos não permanece restrito à contabilidade das propriedades rurais. Quando o custo da fertilização aumenta, o produtor enfrenta escolhas difíceis. Uma delas é reduzir a aplicação de nutrientes, o que geralmente resulta em queda de produtividade. Outra é manter o nível de adubação e absorver o aumento de custos, esperando que o preço da colheita futura compense essa elevação. Em ambos os cenários, os efeitos acabam se refletindo ao longo de toda a cadeia alimentar.
Culturas exportadoras como soja e milho tendem a absorver parte dessas pressões graças ao mercado internacional. Já culturas voltadas ao abastecimento interno, como arroz e feijão, são muito mais sensíveis a esse tipo de oscilação. Em alguns casos, produtores podem optar por reduzir a área plantada dessas culturas menos rentáveis, deslocando investimentos para commodities de exportação. Isso cria um paradoxo: um país capaz de produzir grandes volumes de alimentos para o mundo pode enfrentar pressões inflacionárias no mercado doméstico caso os custos agrícolas aumentem de forma persistente.
Diante desse cenário, cresce no Brasil o debate sobre a necessidade de reduzir a dependência externa de fertilizantes. O Plano Nacional de Fertilizantes, com horizonte até 2050, estabelece como meta reduzir essa dependência de aproximadamente 85% para algo próximo de 45% nas próximas décadas. Entre as estratégias propostas estão a reativação de fábricas nacionais de fertilizantes nitrogenados, o aproveitamento do gás natural produzido no pré-sal, o estímulo à mineração de potássio e fosfatos em território nacional e o desenvolvimento de tecnologias capazes de aumentar a eficiência do uso de nutrientes nas lavouras.
Apesar dessas iniciativas, especialistas reconhecem que o avanço é gradual e enfrenta desafios econômicos, ambientais e regulatórios. A produção de fertilizantes é intensiva em energia e capital, exigindo investimentos elevados e planejamento de longo prazo. Ainda assim, o tema vem ganhando espaço no debate público à medida que crises internacionais expõem a vulnerabilidade das cadeias globais de insumos agrícolas.
A questão dos fertilizantes revela, em última análise, um aspecto pouco discutido da segurança alimentar. Produzir alimentos em larga escala não depende apenas de terra, água e tecnologia agrícola. Depende também de energia, mineração, indústria química e rotas logísticas estáveis. Quando um desses elementos entra em desequilíbrio, a produção agrícola de países inteiros pode ser afetada.
Para um país que se tornou conhecido como um dos grandes celeiros do mundo, garantir o acesso estável a esses insumos deixou de ser apenas um tema técnico da agricultura. Trata-se de uma questão estratégica que conecta política energética, geopolítica, segurança alimentar e desenvolvimento econômico. A soberania agrícola brasileira, em grande medida, passa pela capacidade de reduzir essa dependência e construir um sistema produtivo mais resiliente diante das turbulências do cenário internacional.
LEIA NO FACEBOOK.
_
PARA CONSULTA.
1 |Importações de fertilizantes e dependência externa.
- https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2026/01/com-recorde-na-importacao-de-fertilizantes-brasil-amplia-exportacoes-agricolas
- https://www.moneytimes.com.br/importacao-de-fertilizantes-recorde-em-2025-pais-amplia-exportacoes-pads/
- https://sna.agr.br/importacoes-de-fertilizantes-batem-recorde-e-exportacoes-agricolas-avancam-em-2025/
- https://www.farmnews.com.br/mercado/importacao-de-fertilizantes-pelo-brasil-em-2025/
- https://www.cnnbrasil.com.br/agro/brasil-bate-recorde-de-importacao-de-fertilizantes-em-2025/
- https://revistacultivar.com.br/noticias/importacoes-de-fertilizantes-batem-recorde-em-2025
2 | Estrutura produtiva, NPK e vulnerabilidade.
- https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2025/08/06/dependencia-de-fertilizantes-russos-deixa-brasil-vulneravel-a-mais-crises.ghtml
- https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/sdic/confert/pnf (Plano Nacional de Fertilizantes)
- https://digital.agrishow.com.br/artigos/plano-nacional-de-fertilizantes-contribui-com-reducao-de-dependencia-externa/
- https://istoedinheiro.com.br/brasil-preve-diminuir-dependencia
3 | Crises energéticas, gás natural e fertilizantes.
- https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2021/11/11/por-que-a-crise-energetica-pode-levar-a-falta-de-fertilizantes-e-agrotoxicos-e-impactar-safras-futuras.ghtml
- https://www.datamarnews.com/pt/noticias/por-que-a-crise-energetica-pode-levar-a-falta-de-fertilizantes-e-agrotoxicos-e-impactar-safras-futuras/
4 | Guerra no Oriente Médio, Irã, ureia e logística (Ormuz).
- https://www.cnnbrasil.com.br/agro/ureia-dispara-e-mercado-reduz-negociacoes-em-meio-a-guerra-do-ira/
- https://www.cnnbrasil.com.br/agro/com-a-guerra-no-oriente-medio-cotacao-da-ureia-sobe-10-no-brasil/
- https://safras.com.br/conflito-no-oriente-medio-eleva-preco-da-ureia-e-pressiona-custo-da-safra-em-mt-aponta-imea/
- https://visaoagro.com.br/conflito-no-oriente-medio-dispara-preco-da-ureia-e-afeta-agro-do-nordeste/
- https://www.broadcast.com.br/ultimas-noticias/fertilizantes-conflito-no-oriente-medio-eleva-precos-no-brasil-diz-argus/
- https://girodoboi.canalrural.com.br/pecuaria/exportacao-e-comercio-internacional/conflito-entre-ira-e-israel-pressiona-precos-da-ureia-no-brasil/
- https://www.gazetadopovo.com.br/agronegocio/guerra-israel-ira-agronegocio/
- https://www.dw.com/pt-br/como-guerra-no-ir%C3%A3-afeta-o-agroneg%C3%B3cio-do-brasil/a-76334745
5 | Produção interna, Petrobras e política industrial.
- https://investnews.com.br/negocios/petrobras-investe-fertilizantes-agro/amp/
- (Complementar ao PNF) https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/sdic/confert/pnf
6 | Segurança alimentar e caráter estratégico.
- https://www.cnnbrasil.com.br/colunas/marcello-brito/agro/politica-de-fertilizantes-e-seguranca-nacional/
- https://www.campoforte.com/fertilizantes-sao-pecas-chave-da-seguranca-alimentar/
- https://jornal.usp.br/artigos/agrotoxicos-no-brasil-entre-a-producao-e-a-seguranca-alimentar/