Uma reflexão sobre os limites da técnica, a morte da sensibilidade e o esquecimento do que nos torna humanos.
Não é fácil descrever o que se escolheu não ver. A maior parte das coisas que nos deformam não começa com uma mentira, mas com um silêncio. E há certos silêncios que duram tanto tempo que, quando finalmente falamos, o mundo já se esqueceu da própria pergunta.
A assistolia fetal é um desses temas que, quando finalmente nomeado, já perdeu a sua humanidade na boca de quem o pronuncia. Em termos clínicos, o procedimento consiste em induzir uma parada cardíaca no feto. Um líquido letal é injetado diretamente no coração da criança por meio de uma agulha longa, guiada por imagens de ultrassom. Esse líquido pode ser cloreto de potássio, lidocaína ou alguma substância semelhante. A técnica exige precisão: é necessário atingir o vaso correto do coração, enquanto o feto se move no útero. Se o procedimento for bem-sucedido, o coração para de bater. A morte pode levar minutos. Pode levar horas. Até um dia inteiro. Depois disso, a mulher ainda passará pelo parto — do corpo já sem vida do filho que carregava.
Nos manuais técnicos, a linguagem é limpa, desinfetada, objetiva. Ali não há dor, nem sombra, nem hesitação. Apenas “procedimento seguro e eficaz”. Mas é justamente esse tipo de assepsia linguística que mais revela os efeitos da dessensibilização. A frieza da descrição clínica se transforma em padrão de comportamento, depois em cultura, depois em ideologia — e por fim, em lei.
O segundo procedimento, conhecido como Aspiração Manual Intrauterina (AMIU), é utilizado sobretudo nas gestações acima de 14 semanas. Uma cânula é introduzida no útero e ligada a uma seringa de alta pressão, capaz de sugar o feto em pedaços. Braços, pernas, costelas, crânio — tudo passa pelo estreito tubo da ferramenta. A palavra "aspiração" disfarça a natureza do que está sendo feito. Ela empresta ao ato um tom quase higiênico, como se fosse um procedimento odontológico ou um tratamento estético. Mas basta olhar de frente para a realidade — com os olhos de uma criança, ou os de um velho já purificado pelas perdas da vida — para perceber o horror que essa linguagem tenta esconder.
Mais do que procedimentos médicos, o que está em jogo é a arquitetura moral de uma civilização. E ela começa a ruir quando uma sociedade inteira aprende a conviver com a banalização da morte — e aprende a chamar isso de progresso.
A dessensibilização, antes de ser um fenômeno social, é uma mutação na alma. Aos poucos, o indivíduo se adapta ao insuportável. Primeiro se incomoda. Depois se cala. Depois concorda. Por fim, defende. Mas o que acontece dentro dele é mais grave: a capacidade de sentir vai sendo substituída pela capacidade de repetir. Repetir fórmulas, lemas, slogans, sentenças. Repetir palavras que não foram conquistadas com reflexão, mas herdadas de uma narrativa construída para impedir o pensamento.
A narrativa é uma ferramenta poderosa. Quando bem construída, ela não apenas conta uma história, mas instala uma estrutura de sentido no imaginário. Ela começa decidindo os termos do debate, depois os termos da realidade. O que se pode dizer, o que não se pode perguntar, o que deve causar repulsa, o que deve ser chamado de liberdade. Um povo que não sabe mais distinguir uma escolha legítima de uma manipulação bem-embalada está à mercê de qualquer engenheiro social com uma boa retórica.
No Brasil, o artigo 128, inciso II do Código Penal, estabelece que o aborto não é punível quando há consentimento da gestante e a gravidez resulta de estupro. Porém, a mesma lei não exige nenhum tipo de comprovação do estupro. Não se exige boletim de ocorrência. Não se exige exame pericial. Não se exige investigação ou denúncia. A mera alegação basta. Não se trata aqui de desconsiderar o trauma brutal de um estupro, mas de reconhecer o abismo jurídico e ético de permitir a morte de um ser humano inocente com base em uma afirmação cuja veracidade ninguém irá averiguar.
A consideração de que “não há limite de tempo gestacional para o aborto em casos de estupro” é um eco gelado dessa lógica. Ela legitima, sem restrição, a eliminação de um ser humano em qualquer fase de seu desenvolvimento. No nono mês. Com pulmões formados. Com o coração batendo. Com o cérebro já pleno de atividade elétrica. Com chance real de sobreviver fora do útero. E mesmo assim, não lhe é garantido o direito de nascer. Não porque se tenha provado um crime. Mas porque se disse que houve um crime. A dúvida que deveria proteger a vida, agora é usada para justificar sua eliminação.
Talvez o ponto mais perturbador de tudo isso seja a constatação de que as palavras já não causam mais espanto. Que se possa descrever em público a injeção de potássio no coração de uma criança — e que isso não provoque um único tremor na voz. Que se possa falar da destruição intrauterina de um corpo humano — e que isso seja recebido com apatia, ou com aprovação.
O que está em jogo não é apenas a vida do nascituro. É a integridade do mundo interior de quem lê, ou ouve, ou executa essas práticas. É a imagem que cada ser humano faz do outro, e de si mesmo. É o tipo de sociedade que seremos quando não mais reagirmos ao inaceitável. Quando a dor alheia for apenas um dado estatístico, e a consciência moral for rebaixada a um mero algoritmo de conveniência ideológica.
Em tempos como este, a única verdadeira resistência é a imaginação moral. Ela não se impõe por força. Ela se cultiva no silêncio das consciências que ainda não foram tomadas pela frieza. Que ainda sabem tremer diante do sagrado. Que ainda sentem o peso da responsabilidade de cada decisão. Porque a verdade, quando chega, não grita. Ela apenas nos devolve, com doçura e firmeza, a capacidade de ver.
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PARA CONSULTAR.
1 - PSOL quer autorização do STF para que enfermeiros e parteiras realizem abortos.
2 - PSOL pressiona para que STF garanta aborto até 9 meses
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